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🌐 LFS - Defesa - Segurança - GeopolĂ­tica A ArĂĄbia Saudita jĂĄ decidiu quem serĂĄ seu futuro parceiro superpotĂȘncia, e nĂŁo serĂŁo os Estados Unidos.





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Anålise global, projeção de cenårios e construção de cadeias globais de suprimentos.


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Resumo:


A ArĂĄbia Saudita jĂĄ decidiu quem serĂĄ seu futuro parceiro superpotĂȘncia, e nĂŁo serĂŁo os Estados Unidos.

 

A ArĂĄbia Saudita parece estar se reaproximando da China e da RĂșssia apĂłs o conflito com o IrĂŁ, com reuniĂ”es recentes de alto nĂ­vel focadas na expansĂŁo da cooperação energĂ©tica.

Essa mudança reflete uma evolução de uma dĂ©cada que começou apĂłs a guerra de preços do petrĂłleo de 2014-2016, quando a China aprofundou sua influĂȘncia na ArĂĄbia Saudita por meio de investimentos, acordos de energia, apoio Ă  Aramco e alinhamento com as ambiçÔes econĂŽmicas do prĂ­ncipe herdeiro Mohammed bin Salman.

A confiança de Riade nas garantias de segurança dos EUA foi abalada pelos ataques iranianos Ă  infraestrutura energĂ©tica saudita durante a Operação FĂșria Épica.




Vista noturna de Riade. Foto reprodução




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Desde que a China substituiu a RĂșssia como a principal rival dos EUA no quesito superpotĂȘncia, a ArĂĄbia Saudita tem buscado equilibrar suas relaçÔes com Pequim e Washington — Ă s vezes pendendo mais para um lado, outras vezes para o outro. AtĂ© a Guerra dos Preços do PetrĂłleo de 2014-2016, os EUA eram o nĂșcleo das relaçÔes; apĂłs o tĂ©rmino da guerra, passaram a ser a China e a RĂșssia; e, a partir do inĂ­cio do segundo mandato do presidente americano Donald Trump, voltaram a ser os EUA. Contudo, apĂłs a Operação Epic Fury contra o IrĂŁ, tudo indica que essa relação voltarĂĄ a pender para a China e a RĂșssia, com uma sĂ©rie de reuniĂ”es de alto nĂ­vel entre autoridades chinesas e sauditas realizadas na semana passada. Uma delas — entre o vice-diretor da Administração Nacional de Energia da China, Song Hongkun, e o presidente da divisĂŁo de Downstream da Saudi Aramco, Mohammed Al Qahtani — teve como foco o fortalecimento da segurança energĂ©tica global e a cooperação bilateral no setor de petrĂłleo e gĂĄs entre os dois paĂ­ses. EntĂŁo, como o mercado global de petrĂłleo chegou a esse ponto e o que acontecerĂĄ a seguir?


A origem da situação atual reside na devastação financeira causada aos países da OPEP pela Guerra dos Preços do Petróleo de 2014-2016, analisada detalhadamente em meu livro mais recente sobre a nova ordem global do mercado de petróleo . Antes do início do conflito, existia uma relação ampla e profunda entre os EUA e a Aråbia Saudita, baseada em um acordo histórico entre Washington e Riad, formulado em uma reunião em 14 de fevereiro de 1945 entre o então presidente dos EUA, Franklin D. Roosevelt, e o rei saudita da época, Abdulaziz Al Saud. O acordo era o seguinte: os EUA receberiam todo o suprimento de petróleo de que necessitassem enquanto a Aråbia Saudita tivesse reservas, em troca da garantia de segurança da Casa de Saud e, por extensão, da Aråbia Saudita. Isso funcionou bem o suficiente para sobreviver à Crise do Petróleo de 1973, na qual Riad liderou um embargo de petróleo, juntamente com seus irmãos da OPEP, contra os EUA e seus aliados por ajudarem Israel na Guerra do Yom Kippur de 1973. Contudo, essa situação não resistiu verdadeiramente à Guerra dos Preços do Petróleo de 2014-2016, pois, a essa altura, o setor de petróleo de xisto dos EUA jå havia se tornado uma força significativa na produção global de petróleo, tornando o país muito mais capaz de suportar preços baixos do petróleo por períodos prolongados do que a Aråbia Saudita e os demais membros da OPEP. Além disso, Washington considerou esse episódio, na pråtica, como uma segunda guerra dos preços do petróleo instigada pela Aråbia Saudita, por representar uma violação excessiva dos principais acordos bilaterais de 1945.


ApĂłs a devastação financeira causada pela Guerra dos Preços do PetrĂłleo de 2014-2016 para a ArĂĄbia Saudita e seus parceiros da OPEP, eles nĂŁo tiveram outra escolha senĂŁo admitir a RĂșssia no grupo mais amplo "OPEP+" para restaurar a credibilidade abalada da organização nos mercados globais de petrĂłleo. A China, por sua vez, conseguiu alavancar o poder recĂ©m-adquirido de seu aliado para estender sua prĂłpria influĂȘncia no principal estado energĂ©tico do Oriente MĂ©dio por meio de uma sĂ©rie de amplos acordos firmados apĂłs 2016, e seu foco imediato em estabelecer as bases para esses acordos foi uma estrela em ascensĂŁo em Riad: o entĂŁo PrĂ­ncipe Mohammed bin Salman (MbS). Desde o primeiro ano da Guerra dos Preços do PetrĂłleo de 2014-2016, o orçamento do governo da ArĂĄbia Saudita entrou em dĂ©ficit — atingindo nĂ­veis de dois dĂ­gitos em relação ao PIB no primeiro ano completo da guerra — e permaneceu deficitĂĄrio atĂ© o final de 2021. Ao mesmo tempo, MbS nĂŁo era o sucessor natural do Rei Salman, sendo o herdeiro designado o PrĂ­ncipe Muhammad bin Nayef, mas o jovem prĂ­ncipe teve uma ideia que acreditava que o ajudaria a progredir: uma oferta pĂșblica inicial (IPO) da principal empresa da ArĂĄbia Saudita, a Aramco.  



Ele acreditava, e expressou publicamente essa opiniĂŁo no segundo semestre de 2016, que se a ArĂĄbia Saudita listasse 5% da empresa em bolsas de valores internacionais, arrecadaria pelo menos US$ 100 bilhĂ”es para o Reino, em fundos muito necessĂĄrios. Esse valor tambĂ©m representaria uma avaliação da Saudi Aramco de US$ 2 trilhĂ”es, tornando-a de longe a empresa mais valiosa jĂĄ listada na bolsa de valores do mundo, restaurando, assim, parte da reputação prejudicada da ArĂĄbia Saudita. MbS tambĂ©m acreditava que a listagem da Saudi Aramco em diversos centros financeiros importantes ao redor do mundo, incluindo as duas bolsas de valores mais prestigiosas – a Bolsa de Valores de Nova York e a Bolsa de Valores de Londres – projetaria a presença da ArĂĄbia Saudita como um ator internacional nos mercados financeiros em geral, e nĂŁo apenas no setor petrolĂ­fero. Todos esses argumentos pareciam sĂłlidos o suficiente Ă  primeira vista, e os altos funcionĂĄrios sauditas concordaram em prosseguir. Contudo, quase imediatamente apĂłs o inĂ­cio do processo, começaram a surgir questionamentos por parte de investidores internacionais sobre a estrutura corporativa da Aramco, o grau de controle governamental, sua avaliação, suas reservas reais de petrĂłleo e capacidade ociosa, e a segurança fĂ­sica de seus campos, entre muitos outros aspectos. O resultado foi que nenhum investidor internacional sĂ©rio quis se envolver muito no IPO, assim como as bolsas de valores mais prestigiadas do mundo. Isso colocou MbS em uma posição delicada, jĂĄ que ele era o idealizador original da ideia. No entanto, justamente nesse momento, a China ofereceu-se para comprar os 5% da Aramco que seriam oferecidos no IPO. Embora a oferta tenha sido posteriormente recusada, MbS jamais se esqueceu do gesto da China.



Pouco depois, em março de 2017, ocorreu uma visita histĂłrica do Rei Salman da ArĂĄbia Saudita Ă  China, durante a qual foram assinados acordos comerciais no valor de cerca de US$ 65 bilhĂ”es em setores como refino de petrĂłleo, petroquĂ­mica, manufatura leve e eletrĂŽnica. Em agosto daquele ano, o entĂŁo vice-ministro da Economia e Planejamento da ArĂĄbia Saudita, Mohammed al-Tuwaijri, declarou em uma conferĂȘncia sino-saudita em Jeddah: “Estaremos muito dispostos a considerar financiamento em renminbi e outros produtos chineses”. O uso do renminbi era — e continua sendo — um pilar central da estratĂ©gia da China para subverter um dos pilares fundamentais sobre os quais se constrĂłi a dominĂąncia global dos EUA: o uso do dĂłlar como moeda de reserva e de comĂ©rcio global, conforme detalhado em meu livro mais recente sobre a  nova ordem do mercado global de petrĂłleo . Os comentĂĄrios de Al-Tuwaijri surgiram durante a visita de polĂ­ticos e financistas de alto escalĂŁo da China Ă  ArĂĄbia Saudita em agosto de 2017, ocasiĂŁo em que tambĂ©m foi decidido que a ArĂĄbia Saudita e a China estabeleceriam um fundo de investimento de US$ 20 bilhĂ”es em regime de parceria igualitĂĄria (50:50). De acordo com declaraçÔes feitas na Ă©poca pelo entĂŁo Ministro da Energia saudita, Khalid al-Falih, esse fundo investiria em setores como infraestrutura, energia, mineração e materiais, entre outras ĂĄreas. Em agosto de 2022, na assinatura de um acordo multifacetado entre a Aramco e a China Petroleum & Chemical Corporation (Sinopec), o presidente da Sinopec, Yu Baocai, afirmou: “A assinatura do Memorando de Entendimento inaugura um novo capĂ­tulo em nossa parceria no Reino… As duas empresas unirĂŁo esforços para renovar a vitalidade e alcançar novos avanços na Iniciativa CinturĂŁo e Rota [BRI] e na VisĂŁo 2030 [da ArĂĄbia Saudita]”. No quarto trimestre de 2022, a ArĂĄbia Saudita reiterou seu compromisso com a China como seu “parceiro e fornecedor de petrĂłleo bruto mais confiĂĄvel”, alĂ©m de amplas garantias de apoio contĂ­nuo em diversas outras ĂĄreas. Isso estava em consonĂąncia com os comentĂĄrios anteriores do diretor executivo da Aramco, Amin Nasser, de que: “Garantir a segurança contĂ­nua das necessidades energĂ©ticas da China permanece nossa maior prioridade – nĂŁo apenas pelos prĂłximos cinco anos, mas pelos prĂłximos 50 e alĂ©m”.



Este e vĂĄrios outros comentĂĄrios semelhantes na mesma Ă©poca pareciam confirmar que a ArĂĄbia Saudita havia passado a considerar os EUA apenas mais um de seus parceiros — particularmente na ĂĄrea de segurança — em uma nova ordem global na qual Pequim e seus aliados compartilhariam a liderança com Washington, antes de tentarem superĂĄ-la. Essa visĂŁo parece ter se reafirmado apĂłs o que a ArĂĄbia Saudita — e muitos de seus parceiros no Oriente MĂ©dio — consideram uma falha de Washington em salvaguardar seus interesses econĂŽmicos e de segurança durante a guerra com o IrĂŁ. Apesar de ter investido centenas de bilhĂ”es de dĂłlares ao longo dos anos em equipamentos de defesa fornecidos pelos EUA, com o objetivo de proteger o Reino contra ataques, o IrĂŁ conseguiu atingir alvos importantes no paĂ­s, incluindo o gasoduto Leste-Oeste, os campos de petrĂłleo de Manifa e Khurais, a refinaria de Ras Tanura e diversas outras instalaçÔes de petrĂłleo, gĂĄs natural, refino e petroquĂ­mica, que se estendem da ProvĂ­ncia Oriental atĂ© a Cidade Industrial de Yanbu. Esses ataques iranianos bem-sucedidos Ă  infraestrutura energĂ©tica crĂ­tica da ArĂĄbia Saudita demonstram a Riad que, mesmo em termos de segurança, a atuação dos EUA parece limitada. Essas preocupaçÔes sĂŁo intensificadas pelos temores mais amplos do Reino de que, qualquer que seja o resultado final do acordo entre EUA e IrĂŁ, ele deixarĂĄ a ArĂĄbia Saudita em uma posição muito mais vulnerĂĄvel do que antes do inĂ­cio da guerra.



Por Simon Watkins - Oil Price 



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