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Qual será o papel dos EUA no mundo multipolar? - créditos MSIA

 

Qual será o papel dos EUA no mundo multipolar?

Em uma entrevista à rede Fox News, o ex-presidente estadunidense Donald Trump afirmou que uma derrota dos EUA no que chamou uma guerra de moedas contra a China seria equivalente a perder uma guerra mundial. Em apoio à sua tese, ele citou a aproximação de várias nações com a China, citando nominalmente a Rússia, Arábia Saudita, Irã, vizinhos hemisféricos como o Brasil e a Colômbia e até mesmo a recente visita do presidente francês Emmanuel Macron a Pequim, de onde voltou fazendo críticas à hegemonia dos EUA sobre a Europa.

“O que está acontecendo? Nós estamos perdendo. Se nós perdermos a nossa moeda – isto é o equivalente a perder uma guerra mundial. Nossa moeda é que nos torna poderosos e fortes”, disse ele.

Em sua linguagem direta, Trump não só explicita o pilar central do poderio global exercido pelos EUA desde o final da II Guerra Mundial, mas sintetiza o grande dilema existencial das elites dirigentes do país (que passou a integrar apenas ao chegar à Presidência, em 2016), especificamente, como encarar o fato de os EUA não serem mais a superpotência hegemônica e terem que compartilhar um mundo multipolar com outras potências emergentes.

Efetivamente, não se trata nem de uma nova versão da Guerra Fria, desta vez entre os EUA e a China, como sugerem observadores mais apressados. Em vez dela, apresenta-se um cenário global com vários polos de poder e influência – os próprios EUA, China e Rússia (às vezes, funcionando como um dipolo) e potências regionais como a Índia e, em plano inferior, Irã, Brasil e outras, que poderão ganhar o espaço de manobra para catalisar processos de desenvolvimento em suas áreas geográficas e não necessariamente subordinados às potências mais fortes.

Nesse cenário, há duas grandes incógnitas.

Uma, evidenciada na advertência de Trump, é a atitude das elites estadunidenses. Em especial, é preocupante o inconformismo dos setores mais belicistas e impregnados da visão “excepcionalista” que tem levado o país de uma guerra à outra desde 1950, escudado no que já foi a maior estrutura produtiva do mundo e no poderio ainda inigualável do dólar como moeda de referência. Em defesa da sua utopia hegemônica, esses grupos parecem não hesitar em levar ao paroxismo a tentativa de intimidar militarmente a Rússia e a China, instrumentalizando o conflito na Ucrânia e as provocações em torno de Taiwan, mesmo à custa do risco cada vez mais presente de um confronto de imprevisíveis e gravíssimas proporções com as duas superpotências ostensivamente aliadas. A esperança de evitar tal desfecho, talvez, resida na ainda tíbia oposição interna àqueles piromaníacos por parte de segmentos mais lúcidos da estrutura de inteligência e militar, cientes dos riscos de uma escalada bélica como a praticada pela Casa Branca de Joe Biden. Os recentes vazamentos de informações sobre a sabotagem do gasoduto Nord Stream por forças militares estadunidenses e norueguesas são evidências dessa guerrilha interna.

De forma ainda incipiente, ganha força nos EUA uma corrente que defende a acomodação dos EUA à condição de uma nação “normal”, capaz de atuar em um cenário mundial mais cooperativo e menos belicoso sem o recurso permanente às suas poderosas Forças Armadas, no qual a reconstrução da sua base industrial desgastada pela “globalização” hiperfinanceira e, evidentemente, a sua moeda, embora em posição mais compartilhada com outras, possam exercer um papel de destaque, mas não hegemônico. Posição que, certamente, seria recebida com aplausos – e alívio – por todo o mundo.

Em certa medida, e apesar de seus arroubos, na esfera política, Trump está mais próximo dessa posição do que dos incendiários.

A segunda incógnita é a posição da União Europeia, cujas elites dirigentes, com raras exceções, parecem ter abandonado qualquer perspectiva de futuro diferente de um alinhamento incondicional com os EUA, inclusive, em suas intervenções na Ucrânia e em Taiwan. Nesse afã, as elites europeias não têm se melindrado em colocar em plano bastante inferior os interesses maiores das suas sociedades, sobre as quais têm recaído os custos da subordinação às aventuras de Washington, principalmente, a alta do custo de vida ocasionada pela guerra na Ucrânia e as sanções contra a Rússia.

De qualquer maneira, em última análise, o mundo multipolar é uma realidade irreversível – exceto se os piromaníacos de Washington optarem pela III Guerra Mundial.25


Créditos MSIA

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